A crença na descrença
A crença na descrença
Sempre me questiono acerca da crença e da descrença.
É possível ver no Facebook, por exemplo, páginas dedicadas a ridicularizar aqueles que creem, bem como as que fazem chacota com os que não creem. Fica nítida a competição de “quem sabe mais” ou “quem humilha mais o outro”.
Como fã de etimologia das palavras, tenho o costume de procurar o sentido original delas, tendo assim uma maior compreensão do cenário que elas envolvem.
O dicionário traz a seguinte definição sobre a palavra ateu:
Que nega a existência de Deus ou de quaisquer outras divindades.
A única diferença entre o crente e o ateu é o objeto de sua crença. Uns creem num ser metafísico, atemporal, detentor de todo poder. Outros, por sua vez, negam a existência deste ser.
Na verdade, o crente e o ateu são mais parecidos do que se imagina. Estão na mesma missão da existência, procurando sentido e significado para as suas almas. A necessidade de completude e satisfação são características intrínsecas ao ser humano.
A Bíblia, livro de fé e prática dos cristãos (ou, ao menos, deveria ser), trata a figura do ateu de forma diferente daquela tratada pela sua etimologia atual.
Frisa-se que ela não faz vistas grossas ao ateu. Na verdade, ela o caracteriza como alguém insensato, que está tentando achar o caminho, cercado de dúvidas e incertezas.
O verdadeiro ateu, à luz das Escrituras, é caracterizado por aquele que nega ajuda a seu próximo, que se omite a fazer o bem ao necessitado. Este comete erro contra o próprio Deus, obstinado em suas cobiças e enganos.
O ateísmo trata a descrença como crença, posto que existem princípios ideológicos, movimentos e associações. A partir do momento que os três aspectos a seguir estão presentes, podemos chegar a esta conclusão:
- práticas comuns entre os indivíduos;
- princípios ideológicos, morais e éticos;
- defesa de sua perspectiva de vida ou cosmovisão.
Desta forma, por expressarem sua religiosidade e espiritualidade de forma integral, pode-se concluir que o ateísmo é uma religião.
Ouso dizer que eles se manifestam de forma mais sincera e pura, comparados a muitos ditos “religiosos”.
Talvez o caminho dos “ateus” seja este, ter crença na descrença, para de fato acertarem seu caminho, encontrando sentido e significado para a existência humana nesta jornada chamada vida.
Sobre Bruno Pulis
Engenheiro de acessibilidade, focado em experiências inclusivas, teólogo, pensador e minimalista digital.
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